quarta-feira, 8 de outubro de 2014

UMA SAUDADE A MAIS


Saudade a gente sente a qualquer hora:
Do bem maior que se nos vai deixando.
Saudade de um amor que foi embora,
De alguém que parte a nos deixar chorando.

Das venturas que não se tem agora;
Da flor pendida o prado perfumando
Da voz da fonte que aos soluços chora,
Da luz da lua a terra prateando.

Da igreja iluminada onde em criança
Rezamos com inocência e confiança
Preces a Deus com fé tão incontida!

Mas há sempre um lugar em nós guardado
Para abrigar no coração magoado
Um saudade a mais em nossa vida.


Bernardina Vilar

MAIOR SAUDADE



Que noite linda! Sim, mas que tristeza
Abrange o ar e acoberta a serra!
O céu imerso em sideral beleza
Chora um pranto de estrelas sobre a terra.

Paira o silêncio em toda a natureza!...
A cortina das sombras se descerra
E a lua brota como vela acesa
Tudo envolvendo no palor que encerra.

Que paz tranqüila! Que serena calma!
E eu pasma em frente à dor que me apavora
Não te encontro e me cresce a ansiedade...

Do pranto o encanto me anuvia a alma
E nesta angústia que me punge agora
Sinto que és tu minha maior saudade.

Bernardina Vilar

S A U DA D E


Saudade é aquela história do passado
Que o amor criou e o tempo destruiu
Mas que ficou no coração gravado
E da recordação nunca fugiu.

É a tristeza, o sonho desmoronado...
Palpitação que em nós se contraiu.
É um vulto, no olhar nunca apagado,
É um golpe que de chofre nos feriu.

É ver morrer um filho tão amado
Vê-lo partir como se um anjo fosse
Com usas de ouro para Deus subindo.

Deixando-nos perplexo, extenuado
Pelo torpor de um sonho que acabou-se
A nossa vida aos poucos destruindo.

Bernardina Vilar

SAUDADE

 
Saudade é a imagem pura, viva, acesa
Fixada no olhar enevoado
Pelo pranto que corre com leveza
Sobre um rosto tristonho, amargurado.

Saudade é o riso pálido... É a tristeza
Que agita o peito, o coração magoado...
A despedida... O adeus e a incerteza
De ver em breve aquele ente amado.

Ver na rua a neblina, deslizando
Na bicicleta um vulto desfilando
Lembrando o neto que está distante.

E sentir logo os olhos rasos d’água,
Sentir no peito uma profunda mágoa
Nesta lembrança perenal, constante.

Bernardina Vilar

SAUDADE

 
Saudade é a imagem das recordações...
De luz acesa, crepitante chama
Que aquece a alma e gera evocações
E sem querer o desengano engana.

Saudade é um verso feito de emoções...
Acre perfume que a doçura emana
Torpor que entrando em nossos corações
Quanto mais embriaga, mais inflama...

Doce abandono... Ausência merencória...
De um passado distante a viva história
Que em nós conserva uma lembrança pura.

Saudade é o silvo agudo de um lamento
Que escutamos no perpassar do tempo
Como sendo delícia e amargura.


Bernardina Vilar

SAUDADES



Saudade é o longo espaço do momento
Em que murcharam nossas esperanças
É o sonho que restou no pensamento
Como uma apoteose de nuanças.

Saudade é conservar bem vivo, atento
O amor passado, cálida lembrança!
É contemplar sozinho ao desalento
A extrema solidão que em nós descansa.

Saudade é um coração pulsante forte,
Palpitante, ansioso, inconsolável
Por ver o aproximar de uma partida.

E ser logo atingido pela morte
De seu amor tão grande, inigualável,
Consumindo num adeus de despedida.

Bernardina Vilar
de Bom dia, Saudade

Razões





Desde o princípio em que foi feito o mundo
Uma sentença existe, e que não muda:
Persiste o arraigado mais profundo
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

Passam-se os tempos e evolui a vida.
Há inovações e toda lei se estuda;
Ninguém remove a instigação antiga
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

...Talvez se ame a quem não deva amarmos...
E neste item com rigor me apego,
Vendo a razão por que o amor é cego.

E se sofrermos por silenciarmos
Do abandono a dor sobeja e aguda,
Eis a razão por que a saudade é muda.

Bernardina Vilar
de 'Meus Versos'

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O CISNE


Ele veio de longe, o voo alçando
Sobre as matas em flor, sobre as campinas
Nas suas brancas asas carregando
Das ninfas o mistério das ondinas.

E através do espaço a voz soltando
Como entoando música divina
A saudade dos seus chegou cantando
Na voz traindo a dor que lhe alucina.

E no espelho das águas, majestoso,
Mirando-se imponente e vaidoso
Desliza em semi-círculos a nadar.

Como quem de uma dor vem se escondendo,
Vai pensando, a si mesmo prometendo
As lembranças nas águas afogar.

Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

AMIGO


Amigo é aquele alguém com quem contamos,
De nossa vida, em todos os momentos;
Que o nosso pranto enxuga se choramos
Partilhando de nossos sofrimentos.

Amigo é a paz tranquila que encontramos
Em meio ao temporal dos desalentos;
É o apoio seguro que acatamos
Para suavizar nossos tormentos.

É a forte mão que para nós se estende,
É o clarão da luz que em nós se acende
Guiando, do amanhã, ao mar profundo.

Força que nos ajuda na subida,
Que faz parte de nós, de nossa vida,
E não trocamos por nada deste mundo.

Dandinha Vilar
De: Meus Versos - 1986

MEUS CANTOS


Aos pés de Deus, humilde, por momentos
Fiz um canto de mística oração.
Juntando a voz das águas e dos ventos
Fiz desse coro um hino, uma canção.

Divulgando com ardor meus pensamentos
Cantei das aves doce entonação;
Do mar ouvindo lúgubres lamentos
Cantei das ondas a acre solidão.

E cantei mais: o hálito das flores...
Da noite escura tétricos negrores
E a transparente alvura do luar.

Mas quando quis cantar meus desencantos
Ao em vez de cantar eu chorei tanto
Que mais nada jamais pude cantar.

Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986