quarta-feira, 8 de outubro de 2014

UMA SAUDADE A MAIS


Saudade a gente sente a qualquer hora:
Do bem maior que se nos vai deixando.
Saudade de um amor que foi embora,
De alguém que parte a nos deixar chorando.

Das venturas que não se tem agora;
Da flor pendida o prado perfumando
Da voz da fonte que aos soluços chora,
Da luz da lua a terra prateando.

Da igreja iluminada onde em criança
Rezamos com inocência e confiança
Preces a Deus com fé tão incontida!

Mas há sempre um lugar em nós guardado
Para abrigar no coração magoado
Um saudade a mais em nossa vida.


Bernardina Vilar

MAIOR SAUDADE



Que noite linda! Sim, mas que tristeza
Abrange o ar e acoberta a serra!
O céu imerso em sideral beleza
Chora um pranto de estrelas sobre a terra.

Paira o silêncio em toda a natureza!...
A cortina das sombras se descerra
E a lua brota como vela acesa
Tudo envolvendo no palor que encerra.

Que paz tranqüila! Que serena calma!
E eu pasma em frente à dor que me apavora
Não te encontro e me cresce a ansiedade...

Do pranto o encanto me anuvia a alma
E nesta angústia que me punge agora
Sinto que és tu minha maior saudade.

Bernardina Vilar

S A U DA D E


Saudade é aquela história do passado
Que o amor criou e o tempo destruiu
Mas que ficou no coração gravado
E da recordação nunca fugiu.

É a tristeza, o sonho desmoronado...
Palpitação que em nós se contraiu.
É um vulto, no olhar nunca apagado,
É um golpe que de chofre nos feriu.

É ver morrer um filho tão amado
Vê-lo partir como se um anjo fosse
Com usas de ouro para Deus subindo.

Deixando-nos perplexo, extenuado
Pelo torpor de um sonho que acabou-se
A nossa vida aos poucos destruindo.

Bernardina Vilar

SAUDADE

 
Saudade é a imagem pura, viva, acesa
Fixada no olhar enevoado
Pelo pranto que corre com leveza
Sobre um rosto tristonho, amargurado.

Saudade é o riso pálido... É a tristeza
Que agita o peito, o coração magoado...
A despedida... O adeus e a incerteza
De ver em breve aquele ente amado.

Ver na rua a neblina, deslizando
Na bicicleta um vulto desfilando
Lembrando o neto que está distante.

E sentir logo os olhos rasos d’água,
Sentir no peito uma profunda mágoa
Nesta lembrança perenal, constante.

Bernardina Vilar

SAUDADE

 
Saudade é a imagem das recordações...
De luz acesa, crepitante chama
Que aquece a alma e gera evocações
E sem querer o desengano engana.

Saudade é um verso feito de emoções...
Acre perfume que a doçura emana
Torpor que entrando em nossos corações
Quanto mais embriaga, mais inflama...

Doce abandono... Ausência merencória...
De um passado distante a viva história
Que em nós conserva uma lembrança pura.

Saudade é o silvo agudo de um lamento
Que escutamos no perpassar do tempo
Como sendo delícia e amargura.


Bernardina Vilar

SAUDADES



Saudade é o longo espaço do momento
Em que murcharam nossas esperanças
É o sonho que restou no pensamento
Como uma apoteose de nuanças.

Saudade é conservar bem vivo, atento
O amor passado, cálida lembrança!
É contemplar sozinho ao desalento
A extrema solidão que em nós descansa.

Saudade é um coração pulsante forte,
Palpitante, ansioso, inconsolável
Por ver o aproximar de uma partida.

E ser logo atingido pela morte
De seu amor tão grande, inigualável,
Consumindo num adeus de despedida.

Bernardina Vilar
de Bom dia, Saudade

Razões





Desde o princípio em que foi feito o mundo
Uma sentença existe, e que não muda:
Persiste o arraigado mais profundo
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

Passam-se os tempos e evolui a vida.
Há inovações e toda lei se estuda;
Ninguém remove a instigação antiga
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

...Talvez se ame a quem não deva amarmos...
E neste item com rigor me apego,
Vendo a razão por que o amor é cego.

E se sofrermos por silenciarmos
Do abandono a dor sobeja e aguda,
Eis a razão por que a saudade é muda.

Bernardina Vilar
de 'Meus Versos'

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O CISNE


Ele veio de longe, o voo alçando
Sobre as matas em flor, sobre as campinas
Nas suas brancas asas carregando
Das ninfas o mistério das ondinas.

E através do espaço a voz soltando
Como entoando música divina
A saudade dos seus chegou cantando
Na voz traindo a dor que lhe alucina.

E no espelho das águas, majestoso,
Mirando-se imponente e vaidoso
Desliza em semi-círculos a nadar.

Como quem de uma dor vem se escondendo,
Vai pensando, a si mesmo prometendo
As lembranças nas águas afogar.

Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

AMIGO


Amigo é aquele alguém com quem contamos,
De nossa vida, em todos os momentos;
Que o nosso pranto enxuga se choramos
Partilhando de nossos sofrimentos.

Amigo é a paz tranquila que encontramos
Em meio ao temporal dos desalentos;
É o apoio seguro que acatamos
Para suavizar nossos tormentos.

É a forte mão que para nós se estende,
É o clarão da luz que em nós se acende
Guiando, do amanhã, ao mar profundo.

Força que nos ajuda na subida,
Que faz parte de nós, de nossa vida,
E não trocamos por nada deste mundo.

Dandinha Vilar
De: Meus Versos - 1986

MEUS CANTOS


Aos pés de Deus, humilde, por momentos
Fiz um canto de mística oração.
Juntando a voz das águas e dos ventos
Fiz desse coro um hino, uma canção.

Divulgando com ardor meus pensamentos
Cantei das aves doce entonação;
Do mar ouvindo lúgubres lamentos
Cantei das ondas a acre solidão.

E cantei mais: o hálito das flores...
Da noite escura tétricos negrores
E a transparente alvura do luar.

Mas quando quis cantar meus desencantos
Ao em vez de cantar eu chorei tanto
Que mais nada jamais pude cantar.

Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Excertos


PRECE


De Deus eu quero a luz que me ilumine,
Do ser humano um pouco de bondade;
Do mal quer fiz, perdão que me redime
E da ilusão a grata realidade.

Do coração eu quero o amor que imprime
N’alma o fulgor da justa caridade;
Do sofrimento a lágrima que exprime
O bálsamo da dor, da acerbidade.

Da inocência a pureza que irradia,
Do pássaro cantor, da voz o encanto
E das campinas o olor inigualável.

Dos felizes, um pouco de alegria...
Dos que sofrem o alívio de seu pranto;
Da humildade e da paz o gosto afável.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

MEUS FILHOS


Pedaços do meu ser que tanto prezo
Por quem vivo, a quem amo, por quem choro
Rosário de minh'alma aonde eu rezo
Uma prece de amor por quem adoro.

Retalhos de minh'alma entristecida
Que é feliz porque sofre e porque ama
Que ao seu lado se sente enaltecida
E enaltece o amor que lhes proclama

São iguais. Todos vivem no meu peito.
Todos brilham no pranto dos meus olhos
E ao meu amor lhes dou igual direito.

Se juntos, lhes dedico igual deidade
Através da distância nos abrolhos
Meus suspiros lhes são de igual saudade.

Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986


 [Tela by William-Adolphe Bouguereau]

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

COMO A PRIMAVERA


Se nasce a flor nos prados verdejantes
Ornamentando as orlas do caminho,
Voltam as andorinhas voejantes
Procurando os beirais do antigo ninho.

Adejam em semi-cÍrculos, doidejantes
Buscando o aconchego de um carinho ...
E com as asas ruflando, estonteantes
Chegam se agasalhando de mansinho.

A quem já não mais crê volta a esperança!
Vem a ilusão e os sonhos, a quimera...
Que vão e voltam no passar dos anos...

E como não me foges da lembrança
Quero que voltes como a primavera
Pra florescer meus tristes desenganos.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

FUNERAIS


Silenciosa a tarde se estremece
Nos estertores de uma dor imensa!
Só murmúrios no ar. Quanto padece
Na agonia mortal, cruel, intensa.

Nem um raio de sol à terra desce!
E os sinos evocam a voz da crença;
Nuvens ajoelhadas fazem prece
Na mais sutil e doce indiferença.

As flores tristemente estão chorando!
E pelo espaço infindo e desolado
Enorme véu de sombras vem descendo.

E do regato as águas vão rolando
Num gemido de dor, angustiado
Tudo porque o dia está morrendo.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

TARDE TRISTE


Chove. A tarde triste está nublada...
E melancólica a chuva cai de leve...
Sutil, silenciosa e embaçada
Como se fosse um grande véu de neve.

Há silêncio no ar. Pela calçada
Desliza o pranto que a esta chuva deve.
Molha as plantas. E a rosa desbotada
Sente fugir a sua vida em breve.

O tempo transformou-se. Escurecendo
Fugiu o sol. E nuvens pesarosas
Derramam lentamente um frio pranto.

O silêncio as lembranças envolvendo
Traz saudade em recordações chorosas
Num cenário de encanto e desencanto.

Pinheiros, São Paulo - 26.12-1989


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

RIO PARANAPANEMA





As entranhas da. terra penetrando
Sereno e calmo o rio vai correndo
Entre matas e morros deslizando
Moroso e lento, curvas descrevendo.

Tranqüilo e belo segue se arrastando
Pretensioso, o vale percorrendo
Nas águas as paisagens espelhando
Como imagem de paz oferecendo.

E com soberania ei-lo seguindo
Orgulhoso e sutil, indiferente,
Como um braço de mar de águas mansas.

Não lhe importa 0 que deixa. Prosseguindo
Vaidoso e forte vai marchando em frente
Como quem busca novas esperanças.

Ourinhos - São Paulo - 25 .12.89

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

PARALELAS



Pela margem esquerda eu vou seguindo
E na orla direita vais andando...
Assim, distanciados, vamos indo,
E entre nós um rio deslizando,

Se 0 crepúsculo tristonho vai caindo
Eu sozinha já estou me retirando
Mas se a aurora desponta e 0 sol vem vindo
Certamente tu vens te aproximando.

Não te encontro e nunca me acompanhas
Mas nossas almas, solfejando hinos
De esperanças modulam árias belas,

E só nos vem desilusões tamanhas!...
Tudo isto porque nossos destinos
Simplesmente são linhas paralelas.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

DIMENSÕES


Maior que a imensidão do firmamento
Ou a. vastidão do mar que nós tememos;
Maior que força eólica do vento,
Do sol a pino a luz que recebemos,

Maior que a rapidez do pensamento
Ou o vácuo do infinito que nós vemos;
Maior que a noite triste de um lamento
Ou que as desilusões que nos sofremos;

Com nada se compara a imensidade
Da dor sofrida que do amor se arvora
Se não se tem 0 que deseja ter;

Maior que a intensidade da saudade
E a tristeza sem fim que me devora
Quando me vejo longe de você,


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

QUINZE ANOS



Quinze anos completas neste dia!
- E a idade do sonho e da ilusão -
Em teu redor um mundo de alegria
Faz pulsar com ardor teu coração.

Da vida, no jardim, com galhardia
Desabrochas feliz, rosa em botão!
No teu sonhar de mística poesia
Tua alma regurgita de emoção.

Que este ano te seja abençoado,
E marches com a bandeira da esperança
Buscando a gloria que hás de ter por certo...

Que o futuro te seja coroado
Com as graças de Deus feito bonança
E a vida te seja um céu aberto.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

NOITE DE SÃO JOÃO


Regurgita-se o plácido arraial
Desde o surgir do sol lá no nascente
Engalanado para o festival
Coroado de luz, galhardamente.

Fogueiras espalhando alegremente
Crepitações festivas, sem igual,
Brincando ao seu redor, garbosamente
Crianças de semblante angelical.

Noite feita de risos e de amores...
De artifícios os fogos de mil cores
Enfeitam de esplendor a imensidão.

E o céu colorido de balões
Faz pulsar de alegria Os corações
Com os festejos da Noite de São João.


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)

ROTINA


A vida é sempre a mesma. Uma rotina.
Há flores despontando, outras morrendo
Há pássaros cantando entre a campina
E há ninho vazio adormecendo.

De luar, há brancura em luz divina,
E noite escura em trevas se envolvendo;
Rio cantarolando. Frio, neblina,
E terra ardendo em brasa se estorcendo.

Há sorrisos, cantares, dor e pranto
Mal divididos. A uns fica a lembrança...
Outros vivem feliz realidade.

Assim decorre a vida. E por encanto
Em cada amanhecer ha uma esperança
E em cada pôr-do-sol uma saudade.


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade’ (1995)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

AMIGO


Amigo é aquele alguém com quem contamos,
De nossa vida, em todos os momentos;
Que o nosso pranto enxuga se choramos
Partilhando de nossos sofrimentos.

Amigo é a paz tranquila que encontramos
Em meio ao temporal dos desalentos;
É o apoio seguro que acatamos
Para suavizar nossos tormentos.

É a forte mão que para nós se estende,
É o clarão da luz que em nós se acende
Guiando, do amanhã, ao mar profundo.

Força que nos ajuda na subida,
Que faz parte de nós, de nossa vida,
E não trocamos por nada deste mundo.


Dandinha Vilar
De: Meus Versos - 1986

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

LÁGRIMAS PERDIDAS


Não consigo saber se alguém me ama,
Se acaso alguém merece este meu pranto;
Por mim não sei também se alguém derrama
Uma lagrima de amor que vale tanto!

 E quanto mais o meu sofrer se inflama
Mais eu sinto o sabor do desencanto;
Quanto mais choro e a dor de mim se emana.
 Mais me envolvo num doloroso encanto.

 Chorar? Nem sei por quem! Só sei que choro!
E peço a Deus e a soluçar imploro
 Que me diga se devo assim chorar...

 E as minhas pobres lágrimas perdidas
Vão rolando talvez despercebidas
Porque afinal ninguém me sabe amar!

 Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade’ (1995)

AURORAS E CREPÚSCULOS




Todo dia, na fimbria do horizonte
Surge a aurora num sonho embevecido;
Abre-se a flor que expande junto à fonte
Um perfume de amor apetecido.


Mas se o galho tristonho pende a fronte
Acobertando o ninho adormecido
No véu da noite, aconchegando o monte
Chega o crepúsculo em sombras envolvido.

Assim é a vida: flor desabrochada...
Imagem da esperança despertada
Da aurora à luz, de nívea claridade.

E como o berço onde adormece o dia,
No momento de paz da “Ave Maria”.
Esta vida é crepúsculo. É Saudade.


Bernardina Vilar

N 0 I T E






Esvai-se a luz do sol lá no infinito...
A terra inteira cobra-se de luto
Mas as estrelas num piscar bendito
Vão fazendo o clarão do seu reduto.

Por entre as sombras, pressuroso, aflito
Joga-se o rio no penhasco abrupto
Da ave noturna o estridente grito
Corta o silêncio a estrondar de súbito.

Depois a terra dorme. E de mansinho
A lua surge. E pelo seu caminho
Vai desfazendo o crepe dos negrumes.

E a. serra, de luar acobertada,
De pouco em pouco vai ficar bordada
Com um turbilhão de luz de vagalumes.



Bernardina Vilar

O POR DO SOL



Descamba o sol no ocaso além do monte...
O dia moribundo se despede!
Entre os rochedos rumoreja a fonte
E o silêncio ao redor, saudades mede.

A escuridão já paira no horizonte
A tarde, pra dormir, tristonha pede...
E sobre as nuvens, reclinando a fronte
De que o dia partiu não se apercebe.

No campanário o bimbalhar de um sino
Tange dolente ao perpassar do vento
Doce acorde de paz, tranqüilidade...

Meu coração se sente pequenino
Para conter num canto de lamento
O infinito sem par de uma saudade!

Bernardina Vilar

MEU PÉ DE SERRA



Pé de serra, meu berço, meu recanto,
Jardim de amores, sonhos e quimera!
Verdes campos em flor, beleza, encanto
Da natureza aberta em primavera.

A sombra do arvoredo o doce canto
Do rouxinol que uma saudade impera!
E a fonte rumoreja como um pranto
De quem partindo alguém deixou à espera.

Teus ocasos são cheiros de poesia,
E o teu nascer do sol tão radiante
Divina luz esparge sobre a terra;

E a lua cheia em toques de magia
Incita o seresteiro, delirante,
Cantar em teu louvor, meu pé de serra!


Bernardina Vilar

SILÊNCIO, CORAÇÃO


Não bate, coração, que eu tenho medo
De que batendo assim descompassado,
Tu venhas descobrir o meu segredo
Que bem no teu escrínio está guardado.

Há muito acalentei meu sonho ledo
Que a ti somente tenho confiado
És tu que representas seu degredo
Que não deve a ninguém ser revelado.

Silêncio, coração! Meu amor dorme!
E eu suporto calada o peso enorme
Desta, dor que jamais manifestei.

Portanto, coração, eu te proclamo:
- Não descubras a quem eu tanto amo
N em digas a. ninguém por quem chorei!


Bernardina Vilar

O SERTANEJO


Nos ermos dos sertões áridos, quente,
Enfrentando as agruras do destino,
Corajoso, incansável, forte, crente,
Sempre a esperar trabalha o nordestino.

Espera a chuva que do céu lhe venha
E esperando com fé a terra ajeita.
Mas se a chuva não vem não se desdenha
Olha pra frente e aguarda outra colheita.

O pão lhe nega a terra ressequida
Fita, o céu descampado, sem bonança
E avança sem cessar na dura lida.

Confiante, em esperar por Deus não cansa.,
E ao declinar do pôr-do-sol da vida
Morre abraçando a última esperança.


Bernardina Vilar

SÓ FICOU SAUDADE

Já nada resta do viver de outrora!
O tempo destruiu sem piedade
Tudo quanto de bom na doce aurora
Da existência, era paz, felicidade.

Do jardim que era lindo resta agora
A terra ressequida. É bem verdade
Que a casa ainda lá esta, embora
Tão diferente! (Decifrar, quem há de?)

Murcharam de tristeza as esperanças!...
Nos olhos o que ainda brilha é o pranto
Refletindo uma dor que o peito invade.

Dos entes tão queridos, lembranças!
Eles se furam conduzindo o encanto
Da minha vida. Só ficou saudade.

Bernardina Vilar

In ‘Bom dia, Saudade’ (1995)

A VOZ DA SAUDADE


Se cai a noite plácida, serena,
Tão branca de luar — doce magia...
A carícia da brisa torna a cena,
Num requinte envolvente de poesia.

O azul do céu de uma beleza extrema
Povoado de estrelas irradia,
E qual o encantamento de um poema
Faz palpitar sutil melancolia.

No Coração da mata um mocho pia
Rompendo a solidão num tom dolente,
Como um canto de amarga soledade.

E o coração da gente silencia
Porque mais alto que sua voz ardente
Fala a voz merencória da saudade.

Bernardina Vilar

SAUDADE


Saudade é a oração que nós rezamos
Com os olhos presos na recordação
Avivando as lembranças que guardamos
Bem no escrínio do nosso coração.

Saudade é a melodia que entoamos,
De uma ária, doce emoção
Angústia dolorosa que provamos
Num momento de atroz separação

Saudade é um lenço branco tremulando
Uma palavra – adeus – na despedida,
Uma lágrima a brilhar em nossos olhos.

Saudade é o dia-a-dia transformando
Um sonho acalentado em nossa vida
Num pesadelo feito só de escolhos.

Bernardina Vilar

A PRIMEIRA SAUDADE

Foi no momento exato em que nasci
Que a primeira saudade me atingiu
Pois minha mãe, a mãe que eu nunca vi
Me pôs no mundo e para Deus partiu.

E na minha inocência eu prossegui
Sem ter noção da dor que me feriu,
Depois... só bem depois compreendi
Que algo triste em meu peito evoluiu

Quem me criou cobriu a minha vida
De zelos, de carinhos e de amor
Mas uma sensação me perturbava.

Era aquela saudade indefinida...
Mágoa de não ter mãe. E aquela dor
Que desde que eu nasci me dominava.

Bernardina Vilar

De: Bom dia Saudade

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

BOM DIA, SAUDADE


Bom dia, meu amor! Tudo desperta
Para um dia de novas esperanças!
E eu vejo o sol pela janela aberta
Do infinito, no início das andanças.

Mas eis que nuvem turva lhe acoberta
E fixa em meu olhar tristes lembranças
Foge o sol, foge a luz, e a a dor me aperta
O coração, que esta tristeza alcança.

Bom, minhas flores que murcharam!
Meus pássaros que tristes se calaram
Envoltos por um véu de soledade.

Bom dia, então, minha tristeza triste
Que dentro de mim, em me magoar persiste...
Bom dia, meu amor, minha saudade!

Bernardina Vilar
De: Bom dia Saudade

SAUDADE


Saudade é uma dor suave e forte!
Cicatriz a sangrar dentro da gente. . .
E a vida em flor com sensação de morte;
Amanhecer com sombras de poente.

Saudade! Insônia de quem não se importe
De sonhar envolvido em sono quente.
Nuvem de sol, calor que desconforte
A alma gelada, tiritante e ardente.

Saudade é a expressão indefinida. . .
Verso incompleto de canção dorida...
Minuto que se fez eternidade!

Recado extraviado no caminho. . .
A paz da ave que perdeu seu ninho...
Melodia de pranto é o que é Saudade.

Bernardina Vilar

De: Bom dia Saudade

SAUDADE


Saudade é um sino triste bimbalhando
Na igrejinha branca de uma aldeia;
E um violão sonoro dedilhando
De uma noite, ao clarão da lua cheia.

Saudade é um rio cheio transbordando
Lançando ao longe turbilhões de areia;
É a cachoeira se precipitando
Jogando as águas no furor que ateia.

Saudade é uma manhã de sol nascente
Com gotinhas de orvalho ornamentando
As flores de um jardim, desabrochadas...

E a gente a contemplá-las docemente
Percebendo que em nós estão faltando
Todas as alegrias desejadas.

Bernardina Vilar

de Bom dia Saudade

SAUDADE

Saudade é aquela estrela cintilante
Que fugiu, se apagou tão de repente
E no percurso de um vagar errante
Fez da nossa alegria, dor latente.

Saudade é a ilusão do eterno instante
Vibrando forte, audaz, dentro da gente,
Sentimento ferino, estonteante,
Em nosso íntimo agindo docemente.

Saudade é um silêncio tenebroso,
Frio, agreste, fatal, misterioso
Que nos fere, maltrata e acalenta.

Saudade é a tristeza de um momento
Rodopiando em nosso pensamento
Tornando nossa vida em morte lenta.

Bernardina Vilar

de Bom dia Saudade

SAUDADE



Saudade. Lua cheia se elevando
Pelos azuis dos céus em noite mansa
Prateando os espaços e espalhando
Sobre a terra a luz branca da bonança.

Saudade. Estrada longa procurando
Achar na mata o verde da esperança.
E o seresteiro ao violão cantando
De um mistério insondável, uma lembrança.

Saudade. O grito agudo de um lamento
Que se mistura ao sibilar do vento
E bate em cheio em nosso coração...

... A sublime visão de quem amamos
Que fugindo de nós nunca alcançamos
Mesmo retida na recordação.


Bernardina Vilar

de Bom dia Saudade

terça-feira, 2 de setembro de 2014

SAUDADE


Saudade é uma dor suave e forte!
Cicatriz a sangrar dentro da gente. . .
E a vida em flor com sensação de morte;
Amanhecer com sombras de poente.

Saudade! Insônia de quem não se importe
De sonhar envolvido em sono quente.
Nuvem de sol, calor que desconforte
A alma gelada, tiritante e ardente.

Saudade é a expressão indefinida. . .
Verso incompleto de canção dorida...
Minuto que se fez eternidade!

Recado extraviado no caminho. . .
A paz da ave que perdeu seu ninho...
Melodia de pranto é o que é Saudade.

Bernardina Vilar
In ‘Bom dia Saudade’ (1995)

[Arte: Paola Epifani]

O TEMPO

 
Indomável, invencível, arrogante
Como um rio a correr vertiginoso
Não te condoes nem mesmo por instante
Aos clamores dc um coração choroso.

Passageiro do mundo, incessante,
Num desafio bruto, desdenhoso,
Vais rasgando num gesto delirante
As entranhas da vida, impetuoso.

Conduzindo aos abismos do passado
Tudo quanto te surge no caminho,
Ó Tempo, não conheces a piedade!

Nada te faz parar. No triste fado
De não retroceder, seguir sozinho,
Só quem te faz deter é a Saudade.

Bernardina Vilar

sábado, 30 de agosto de 2014

SAUDADE


Saudade! É o rio cheio transbordante
Que lembra nossos tempos de criança
É o arvoredo verde, farfalhante
Misturando-se ao verde da Esperança.

Saudade! É o doce canto delirante
Do pássaro que no galho se balança
É a lua cheia vagarosa, andante
Espargindo a luz branca da bonança.

É repassar na mente, do passado
Doces recordações adormecidas
Que não se pode descartar, jamais...

Sentir dentro do peito apaixonado
Um “não sei” que transportam nossas vidas
A tempos idos que não voltam mais.

Bernardina Vilar