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9/22/2014
MEUS CANTOS
Aos pés de Deus, humilde, por momentos
Fiz um canto de mística oração.
Juntando a voz das águas e dos ventos
Fiz desse coro um hino, uma canção.
Divulgando com ardor meus pensamentos
Cantei das aves doce entonação;
Do mar ouvindo lúgubres lamentos
Cantei das ondas a acre solidão.
E cantei mais: o hálito das flores...
Da noite escura tétricos negrores
E a transparente alvura do luar.
Mas quando quis cantar meus desencantos
Ao em vez de cantar eu chorei tanto
Que mais nada jamais pude cantar.
Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986
9/18/2014
PRECE
De Deus eu quero a luz que me ilumine,
Do ser humano um pouco de bondade;
Do mal quer fiz, perdão que me redime
E da ilusão a grata realidade.
Do coração eu quero o amor que imprime
N’alma o fulgor da justa caridade;
Do sofrimento a lágrima que exprime
O bálsamo da dor, da acerbidade.
Da inocência a pureza que irradia,
Do pássaro cantor, da voz o encanto
E das campinas o olor inigualável.
Dos felizes, um pouco de alegria...
Dos que sofrem o alívio de seu pranto;
Da humildade e da paz o gosto afável.
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
9/16/2014
MEUS FILHOS
Pedaços do meu ser que tanto prezo
Por quem vivo, a quem amo, por quem choro
Rosário de minh'alma aonde eu rezo
Uma prece de amor por quem adoro.
Retalhos de minh'alma entristecida
Que é feliz porque sofre e porque ama
Que ao seu lado se sente enaltecida
E enaltece o amor que lhes proclama
São iguais. Todos vivem no meu peito.
Todos brilham no pranto dos meus olhos
E ao meu amor lhes dou igual direito.
Se juntos, lhes dedico igual deidade
Através da distância nos abrolhos
Meus suspiros lhes são de igual saudade.
Dandinha Vilar
De "Meus Versos" 1986
[Tela by William-Adolphe Bouguereau]
9/11/2014
COMO A PRIMAVERA
Se nasce a flor nos prados verdejantes
Ornamentando as orlas do caminho,
Voltam as andorinhas voejantes
Procurando os beirais do antigo ninho.
Adejam em semi-cÍrculos, doidejantes
Buscando o aconchego de um carinho ...
E com as asas ruflando, estonteantes
Chegam se agasalhando de mansinho.
A quem já não mais crê volta a esperança!
Vem a ilusão e os sonhos, a quimera...
Que vão e voltam no passar dos anos...
E como não me foges da lembrança
Quero que voltes como a primavera
Pra florescer meus tristes desenganos.
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
FUNERAIS
Silenciosa a tarde se estremece
Nos estertores de uma dor imensa!
Só murmúrios no ar. Quanto padece
Na agonia mortal, cruel, intensa.
Nem um raio de sol à terra desce!
E os sinos evocam a voz da crença;
Nuvens ajoelhadas fazem prece
Na mais sutil e doce indiferença.
As flores tristemente estão chorando!
E pelo espaço infindo e desolado
Enorme véu de sombras vem descendo.
E do regato as águas vão rolando
Num gemido de dor, angustiado
Tudo porque o dia está morrendo.
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
TARDE TRISTE
Chove. A tarde triste está nublada...
E melancólica a chuva cai de leve...
Sutil, silenciosa e embaçada
Como se fosse um grande véu de neve.
Há silêncio no ar. Pela calçada
Desliza o pranto que a esta chuva deve.
Molha as plantas. E a rosa desbotada
Sente fugir a sua vida em breve.
O tempo transformou-se. Escurecendo
Fugiu o sol. E nuvens pesarosas
Derramam lentamente um frio pranto.
O silêncio as lembranças envolvendo
Traz saudade em recordações chorosas
Num cenário de encanto e desencanto.
Pinheiros, São Paulo - 26.12-1989
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
RIO PARANAPANEMA
As entranhas da. terra penetrando
Sereno e calmo o rio vai correndo
Entre matas e morros deslizando
Moroso e lento, curvas descrevendo.
Tranqüilo e belo segue se arrastando
Pretensioso, o vale percorrendo
Nas águas as paisagens espelhando
Como imagem de paz oferecendo.
E com soberania ei-lo seguindo
Orgulhoso e sutil, indiferente,
Como um braço de mar de águas mansas.
Não lhe importa 0 que deixa. Prosseguindo
Vaidoso e forte vai marchando em frente
Como quem busca novas esperanças.
Ourinhos - São Paulo - 25 .12.89
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
PARALELAS
Pela margem esquerda eu vou seguindo
E na orla direita vais andando...
Assim, distanciados, vamos indo,
E entre nós um rio deslizando,
Se 0 crepúsculo tristonho vai caindo
Eu sozinha já estou me retirando
Mas se a aurora desponta e 0 sol vem vindo
Certamente tu vens te aproximando.
Não te encontro e nunca me acompanhas
Mas nossas almas, solfejando hinos
De esperanças modulam árias belas,
E só nos vem desilusões tamanhas!...
Tudo isto porque nossos destinos
Simplesmente são linhas paralelas.
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
DIMENSÕES
Maior que a imensidão do firmamento
Ou a. vastidão do mar que nós tememos;
Maior que força eólica do vento,
Do sol a pino a luz que recebemos,
Maior que a rapidez do pensamento
Ou o vácuo do infinito que nós vemos;
Maior que a noite triste de um lamento
Ou que as desilusões que nos sofremos;
Com nada se compara a imensidade
Da dor sofrida que do amor se arvora
Se não se tem 0 que deseja ter;
Maior que a intensidade da saudade
E a tristeza sem fim que me devora
Quando me vejo longe de você,
Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)
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